Jair confirma ter influenciado na desistência do Brasil de sediar COP-25

Pimentel Perfil“É lamentável, mas não surpreende”, registra nota do Observatório do Clima sobre documento eviado pelo Itamaraty às Nações Unidas oficializando a decisão

João Baptista Pimentel Neto*

Na última terça feira (27 o Itamaraty comunicou oficialmente ao Secretariado do Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ) a desistência do Brasil da candidatura para país sede da Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas (COP-25), que está prevista para acontecer entre os dias 11 e 22 de novembro de 2019, para debate e negociação da implementação do Acordo de Paris.

Conforme exposto no comunicado a decisão foi motivada por restrições fiscais e orçamentárias após “uma minuciosa análise dos requisitos, em particular, das necessidades financeiras associadas ao evento”.

Um outro motivo seria o processo de transição entre o atual e o próximo governo, dando a entender sem explicitar que a decisão contou com o apoio e aval do futuro governo chefiado pelo capitão reformado Jair Bolsonaro.

“Tendo em vista as atuais restrições fiscais e orçamentárias, que deverão permanecer no futuro próximo, e o processo de transição para a recém-eleita administração, a ser iniciada em 1º de janeiro de 2019, o governo brasileiro viu-se obrigado a retirar sua oferta de sediar a COP 25.” – aponta o comunicado.

Entidades, ambientalistas e autoridades defendem que decisão seja revertida

O anúncio da desistência provocou imediata reação de entidades ambientais que lamentaram e criticaram a decisão. Em nota, o Observatório do Clima (OC) fez um alerta que ao retirar a candidatura do país para sediar a COP-25, o Brasil poderá perder seu papel de país protagonista nas discussões globais sobre as mudanças climáticas.

“Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos”, alerta o Observatório.

Embaixadora global do programa Homeward Bound, que promove a participação das mulheres na ciência e na política, a ambientalista Natalie Unterstell declarou a Agência Brasil que ainda nutre “expectativa que a decisão seja revertida”.

Natalie é uma das lideranças que deverá participar da COP-24, que acontecerá de 8 a 15 de dezembro, na Polônia e declarou ainda que a decisão causa estranheza já que há apenas algumas semanas o Governo Temer comemorou a confirmação da candidatura do Brasil, apontando-a como sinal do “papel de liderança mundial do país em temas de desenvolvimento sustentável”.

Neste contexto, a ambientalista acredita que a mudança no posicionamento do Brasil foi motivada pelo pocisionamento do futuro governo, que já se declarou crítico de políticas e medidas relacionadas ao tema do desenvolvimento sustentável “Não é a primeira e certamente não será a última notícia ruim de Jair Bolsonaro para essa área”. – afirmou.

Em documento enviado nesta semana à Brasília, também o governador eleito do Paraná, Ratinho Junior, e autoridades governamentais de Foz do Iguaçu -cidade que sediaria o evento-, lamentaram e defenderam que a realização da próxima COP-25 no Brasil seja mantida e realizada no Paraná. Segundo o ofício, a realização do evento geraria uma movimentação econômica de cerca de R$ 400 milhões e promoveria a visita de aproximadamente 35 mil pessoas à cidade de Foz do Iguaçu.

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Jair, o Capitão Reformado e futuro presidente confirmou sua influência em entrevista coletiva

Jair confirma ter “influído” na decisão

A influência do futuro governo na decisão foi confirmada pelo próprio capitão reformado, que nesta quarta feira (28) em entrevista coletiva declarou ter solicitado a retirada da candidatura. “Recomendei ao futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que não fosse realizada no ano que vem no Brasil a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP 25”. – declarou.

Na mesma coletiva Jair afirmou que “o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo. Mas não pode adotar uma política ambiental que atrapalhe o desenvolvimento. Hoje, a economia está quase dando certo por causa do agronegócio, e eles estão sufocados por questões ambientais”, declarou o futuro presidente.

Jair apontou ainda como motivação para a desistência o acordo do Triplo A. “Está em jogo o Triplo A nesse acordo. O que é o Triplo A? É uma grande faixa que pega dos Andes, Amazônia e Atlântico, 136 milhões de hectares, ali, então, ao longo da calha dos rios Solimões e Amazonas, e que poderá fazer com que percamos a nossa soberania nessa área”, disse.

Para seus apoiadores, o posicionamento do capitão reformado é coerente com suas promessas eleitorais. Durante a campanha, o Bolsonaro até ameaçou retirar o Brasil do Acordo de Paris, apresentando como motivo que entende que ao honrar o acordo o Brasil teria “de abrir mão” de 136 milhões de hectares na Amazônia, o que afetaria nossa soberania nacional.

Observatório do Clima divulga nota

Criado em 2002, o Observatório do Clima é uma rede de organizações da sociedade civil que tem por objetivo o acompanhamento e busca de efetivos avanços na agenda do combate às mudanças climáticas no país. A rede conta atualmente com a participação de 45 entidades.

Reconhecido e respeitado internacionalmente, a Observatório divulgou na última quarta feira uma nota sobre a decisão que publicamos abaixo na íntegra:

OC-novo-logo-baixo-300x300Nota do Observatório do Clima sobre a desistência do Brasil de sediar a COP-25

“É lamentável, mas não surpreende, o recuo do governo brasileiro de sua oferta de sediar a COP 25, a conferência do clima de 2019. Visto que há algumas semanas a administração Temer comemorava a confirmação da candidatura do Brasil como sinal do “papel de liderança mundial do país em temas de desenvolvimento sustentável”, a reviravolta provavelmente se deve à oposição do governo eleito, que já declarou guerra ao desenvolvimento sustentável em mais de uma ocasião. Não é a primeira e certamente não será a última notícia ruim de Jair Bolsonaro para essa área.

O Brasil vai, assim, abdicando seu papel no mundo numa das poucas áreas onde, mais do que relevante, o país é necessário: o combate às mudanças do clima. Ironicamente, isso ocorre por ideologia, algo que o presidente eleito e seu chanceler prometeram “extirpar” da administração pública. Com o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos. Ao ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas”.

*jornalista e produtor cultural. Da equipe de Diálogos do Sul

**com informações do Ministério das Relações Exteriores, Agência Brasil e Observatório do Clima

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