Da Capotagem ao Kaos

Jorge Mautner, cantor e compositor.“Na CNN, Trump disse ser do “kaos”. Jair promete capotar-nos de volta a um passado de KKK e ditadura. Juntos, têm o dom de embaralhar tudo e ameaçam nos levar, capotando, até o abismo”.

Jorge Mautner e João Paulo Reys*

A velocidade da comunicação estabeleceu a simultaneidade que se amalgamou com

 

outras simultaneidades na velocidade da luz e criou o efeito de capotagem. Como um carro que você acelera muito e capota, mas além: se desintegra.

Algo que te faz chorar agora, daqui a pouco já não faz. A exaustão provocada por isso é inédita. Há uma série de robôs que não são produzidos em fábricas, mas nos próprios neurônios. A informação desinforma pela ambivalência de simultaneidades vertiginosas.

As eleições mudaram no mundo todo. “Zuckerberg“: montanha de açúcar (em alemão). É tudo domínio. Trump, na CNN, disse ser do “kaos”. A quantidade altera a qualidade.

BolsoTrump ou Trumpnaro tanto faz…o extremismo de ambos tem a mesma origem

Capota-se de tal maneira que ressurgem antigas restrições. É como em Kierkegaard(1813-1855): o ser humano está em alta febre, girando a cabeça no travesseiro de um lado para o outro. Ainda há recantos oníricos, mas estão cercados de pessoas filmando e interpretando em linguagem capotada. É uma venda contínua à qual todo o mundo aderiu.

Onde restou a caricatura do socialismo, como na Venezuela, há um desastre absoluto. A extrema direita manobra a capotagem. Valores humanistas são expostos na vitrine, mas no fundo se preparam para o massacre. Há todas as aparentes escolhas, mas elas vêm capotando.

Jesus um dia chegou a um vilarejo onde viviam dois homens possuídos por demônios. Apavorados ao vê-lo, os demônios pediram que o filho de Deus tivesse piedade. Jesus permitiu que tomassem os corpos de porcos que estavam por perto. Endemoniados, os porcos saíram correndo até despencar, capotando, em um precipício. (Marcos, 5.13)

Os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou. Marcos 5:13

Imaginar e produzir o inesperado que vai impedir a capotagem até o abismo é um desafio para a arte, mas ela está capturada pela publicidade.

A vagarosidade é imprescindível para o pensamento, mas é desincentivada em um mundo de 8 bilhões de pessoas. A constituição única de cada ser parece ter sido destruída. Há uma vontade de se igualar a aquilo que está sendo apresentado pela comunicação.

celular Photograph by Marsel van OostenValores humanistas são expostos na vitrine, mas no fundo se preparam para o massacre

Seja uma quitanda ou uma enorme corporação, todos perguntam ao computador o que fazer e obedecem à recomendação da máquina. Isso vem desde o telégrafo, mas se transformou nesses anos em que o computador dá as respostas corretas a partir do conglomerado de simultaneidades. Nunca houve tamanha clarividência. As pessoas têm a resposta de tudo por meio da comunicação e acham que sabem, mas não sabem.

Não sabem porque não sabem as perguntas que levaram a aquela resposta que agora se apresenta em movimento alucinado.

Isto é…

Os governos com o rádio eram uma coisa e se tornaram outra com a televisão. Hoje, são um negócio no qual Trump é profissional, como um demônio. Em todos os sentidos: é mau caráter, abusa de mulheres.

Como Bolsonaro, promete capotar-nos de volta a um passado de KKK e ditadura, um impossível estado pré-capotagem. Qualquer coisa que eles irradiam é fruto de seu imenso conhecimento como vendedores de almas. Juntos, têm o dom de embaralhar tudo e ameaçam nos levar, capotando, até o abismo.

*Jorge Mautner e João Paulo Reys / Escritor, compositor e criador do Partido do Kaos; Documentarista e roteirista de “Kaos em Ação”, com previsão de lançamento em 2019 (HBO)

Originalmente publicado na coluna Tendências e Debates da Folha de São Paulo

 

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