Bobbio e a utopia do “homem sereno”

O homem sereno se recusa, em qualquer situação, a praticar a violência. E, destarte, a serenidade é uma virtude “não política”, pois o homem sereno atua, em um plano “além da política”.

Originalmente publicado no Centenário Jornal “Diário do Rio Claro” no ano de 2004, pelo professor e jurista João Baptista Pimentel Junior, em sua coluna semanal “Imagens do Cotidiano” o ensaio “A Visão de Norberto Bobbio” analisa a apologia ao “homem sereno” feita pelo consagrado filósofo, jurista e político italiano em uma de suas últimas obras, a coletânea de ensaios “Elogio da Serenidade” publicada em 1994.

“A Visão de Norberto Bobbio”

Por João Baptista Pimentel Junior, via “Diário do Rio Claro”

No mês de janeiro deste ano (2004) faleceu um dos mais notáveis sábios contemporâneos. Filósofo, jurista e político, Norberto Bobbio é considerado “a consciência democrática da política italiana”. Uma de suas últimas obras, “Elogia da Serenidade”, coletânea de ensaios publicada na Itália, em 1994, faz apologia ao homem sereno, embora, segundo o sábio confessa, ele mesmo não o é, pois tem acessos de ira.

Bobbio escreve que ama as pessoas serenas, porque estas tornam o mundo mais habitável. “O sereno não pede, não pretende qualquer reciprocidade: a serenidade é uma disposição em relação aos outros que não precisa ser correspondida para se revelar em toda sua dimensão”.

“A tolerância, por exemplo, exige reciprocidade. Para seu exercício é preciso, no mínimo, que haja uma pessoa diante de outra, e pressupõe uma espécie de acordo. A serenidade não. O homem sereno caracteriza-se, principalmente, por aceitar o semelhante como ele é, sem coagi-lo, nem a ele submeter-se”.

A serenidade, na visão do filósofo italiano, é uma virtude “não política”, pois os homens serenos não tem como participar, como os políticos, na luta pelo poder, na qual, exigem-se intrigas, tramas e insídias. Ocorre que o homem sereno se recusa, em qualquer situação, a praticar a violência. E, destarte, a serenidade é uma virtude “não política”, pois o homem sereno atua, em um plano “além da política”.

Assim, ouso dizer que o pensamento de Bobbio guarda certa semelhança com a doutrina cristã, na qual a maior das virtudes é o perdão. Portanto, a serenidade preconizada por Bobbio, assemelha-se ao equilíbrio emocional descrito nos Evangelhos, que se constitui na passividade diante de um ato ofensivo, como “dar a outra face ao ser esbofeteado por um desafeto”.

Penso que porém, é difícil, senão impossível, manter-se sereno diante de agressões. Aliás, o próprio Cristo, por vezes, perdeu a serenidade, como nos episódios da expulsão dos vendilhões do templo e quando se dirigiu aos escribas e fariseus chamando-os de hipócritas.

O homem sereno, na verdade, é uma utopia. Porque sempre o comportamento humano é ditado pelo consciente. A Consciência no sentido psicológico. E o homem não conhece a si próprio. E por mais que a ciência avance muitos atos praticados pelos seres humanos talvez só possam ser explicados pela psicanálise.

Já se sabe que desde a vida intra uterina, os homens trazem consigo uma herança bio-psíquica e começa a sofrer influências mesológicas, boas e más. Por este motivo não podemos acreditar na existência de “homens serenos”. Estes só existem nas utopias filosóficas.

 

  • João Baptista Pimentel Junior é advogado.

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