Polêmica: De Maria Rita Kehl para a Ministra Marta Suplicy

maria rita kehl
Maria Rita Kehl, psicanalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista brasileira.1 Em 2010, foi vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise” com o livro O Tempo e o Cão.2 3 e recebeu o Prêmio Direitos Humanos4 do governo federal na categoria “Mídia e Direitos Humanos”.

Após ler atentamente a carta pública endereçada por Maria Rita Kehl à Ministra da Cultura Marta Suplicy, o Marv@do (como sempre) resolveu que seria bacana democratizar seu conteúdo. Mesmo porque, razões existem de ambos os lados. Por outro lado e sendo (também como sempre) curto e grosso, o Marv@do acha mesmo que o “buraco”, inclusive os de agulhas, são mais em baixo. Quer seja, ou se aprova a tal reforma da Lei Rouanet de vez e se muda a legislação que rege os incentivos fiscais federais à cultura, ou volta e meia, polêmicas sobre “a qualidade, oportunidade, legalidade e moralidade” do financiamento público de eventos, artistas e, até, como se vê, linguagens artísticas-culturais, continuarão acontecendo. Portanto, o Marv@do acredita que existem mesmo pecados “ao sul do equador” e, que sinceramente, este não foi, não é e nem será a primeira, nem a última polêmica sobre o tema até que mudanças ocorram. E espera (e torce muito) para que Marta jogue com seu poder político para mudar este status quo. Mesmo reconhecendo que a tarefa é difícil, já que a Tia Dilma, continua pouco se importando com a Cultura.

Prezada Ministra Marta, como vai?

Maria Rita Kehl*

Escrevo para lhe dizer que concordo com a sua afirmação: moda é cultura. Alta culinária também. No entanto, eu não penso que sejam estas as expressões culturais que precisam dos incentivos do MinC. 

O argumento de que desfiles sofisticados “melhoram a imagem do Brasil no exterior”, a meu ver, é inconveniente. Esta era uma preocupação dos governos militares: enquanto havia tortura aqui dentro, eles se preocupavam com a imagem do Brasil lá fora. Ora, só o fim da ditadura poderia melhorar nossa imagem frente aos países democráticos.

Hoje, em plena democracia, a tortura só é praticada nas delegacias da periferia, contra negros e pobres cujas famílias são intimidadas para que as denúncias não cheguem nem à sociedade local, quanto menos à comunidade internacional. Então, oficialmente, vivemos em plena democracia. Mas o que é que “mancha” a imagem do Brasil no exterior? Não é a falta de alta costura/alta cultura. É a permanência da desigualdade, que nem os programas sociais dos governos petistas conseguem debelar de fato, embora tenham sim diminuído significativamente a miséria que excluía milhões de brasileiros dos padrões mínimos de consumo.

a-moda-brasileira-precisa-de-apoio-e-tem-poder-para-se-internacionalizarA desigualdade que persiste no Brasil já não é a que impede o povo brasileiro de se alimentar. É a que impede o acesso das classes baixas aos meios de produção. Pescadores perdem as condições de pescar – e com isso, sua cultura tradicional – expulsos de suas comunidades para se tornarem, na melhor das hipóteses, trabalhadores braçais não qualificados. Lavradores, quilombolas e grupos indígenas perdem suas terras – e com isso, as condições de manter suas práticas culturais – expulsos pela ganância do agronegócio. 

Os Pontos de Cultura criados na gestão Gilberto Gil estão abandonados em muitas regiões do país. Músicos e poetas das periferias das grandes cidades não conseguem recursos para mostrar sua arte para o resto do país. Pequenos grupos de teatro, que sobrevivem graças à Lei do Fomento criada na sua gestão na Prefeitura de São Paulo, dificilmente conseguem levar sua produção cultural para outros Estados, muito menos para outros países.

Não prossigo indefinidamente com exemplos que sei que são de seu conhecimento. Termino com uma afirmação que me parece até banal: em um país tão desigual quanto o nosso, fundos públicos só deveriam ser utilizados para possibilitar o crescimento de quem não tem acesso ao dinheiro privado.

Tão simples assim. Por isso estou certa de que, a cada vez que o MinC, o MEC, o Ministério da Saúde e quaisquer outros agirem na direção oposta à da diminuição da desigualdade, a sociedade brasileira vai se indignar. As expressões dessa justa indignação é que hão de “manchar a imagem do Brasil no exterior”. 

Respeitosamente, 
Maria Rita Kehl.

Maria Rita Kehl, psicanalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista brasileira.1 Em 2010, foi vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise” com o livro O Tempo e o Cão.2 3 e recebeu o Prêmio Direitos Humanos4 do governo federal na categoria “Mídia e Direitos Humanos”.

4 comentários em “Polêmica: De Maria Rita Kehl para a Ministra Marta Suplicy

  1. excelente conteúdo desta carta. extremamente legítimo. gostaria de acrescentar que fiquei mais feliz por ter sido feito por uma pessoa de certa posição social, principalmente pelas premiações de envergadura nacional, o que a confere certa notoriedade. sempre torço para que as indignações sejam, principalmente, expressas pelas pessoas de maiores projeções na estrutura social de nossa sociedade.

    parabéns!!

    Marcelo Saback

    Curtir

  2. A Lei Rouanet é um absurdo que serve para manter um minúsculo grupo de artistas e produtores culturais consagrados. E, infelizmente, a mudança da Lei proposta no projeto de lei em tramitação não muda quase nada desse cenário. Quando o Vale Cultura estiver implementado e o dinheiro do vale for usado para comprar a produção cultural já financiada pelo dinheiro público vai ficar evidente a sangria de recursos públicos e espero que essa Lei seja revogada para sempre.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.